Uma análise do projeto ClimaMeter indica que as chuvas extremas registradas recentemente em Minas Gerais, especialmente na região da Zona da Mata, foram intensificadas pelas mudanças climáticas. Em Juiz de Fora, fevereiro de 2026 foi o mês mais chuvoso já registrado na cidade, com volume 240% superior ao recorde anterior. Em apenas dois dias, entre 22 e 24 de fevereiro, foram acumulados cerca de 230 milímetros de chuva.
O estudo comparou eventos meteorológicos semelhantes no clima atual da região, entre 1988 e 2025, com o período de 1950 a 1987. A conclusão é que as precipitações intensas estão hoje entre 15% e 20% mais fortes do que antes do aquecimento global atingir cerca de 1,3°C. Além disso, as temperaturas na Zona da Mata mineira subiram entre 0,8°C e 1,5°C.
Segundo a pesquisadora brasileira Suzana Camargo, da Universidade de Columbia, uma das autoras da análise, o aumento da frequência e da intensidade de chuvas extremas está entre os efeitos esperados do aquecimento global provocado pela atividade humana.
O secretário nacional de Mudança do Clima, Aloísio Melo, afirmou que os impactos das chuvas na região evidenciam falhas nas políticas de prevenção e adaptação nos municípios brasileiros. Em entrevista à CNN Brasil, ele destacou que a capacidade de resposta depende, em grande parte, da mobilização de gestores locais.
Melo citou medidas previstas no eixo de adaptação do Plano Clima, que busca tornar as cidades mais resilientes aos eventos extremos. Entre as ações estão melhorias nos sistemas de drenagem, ampliação do escoamento de água e criação de áreas de absorção baseadas em soluções da natureza. Segundo ele, são investimentos pouco visíveis, mas essenciais para reduzir riscos.
No sábado (28), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a criação de um gabinete federal em Juiz de Fora para coordenar a reconstrução das cidades atingidas pelas chuvas. A medida tem como objetivo acelerar e desburocratizar a liberação de recursos.
As buscas por desaparecidos na cidade foram encerradas após a localização do corpo de Pietro Cesar Teodoro Freitas, de 9 anos. O número de mortes chegou a 65 em Juiz de Fora, com mais de 8,5 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas. Em Ubá, foram registradas sete mortes e uma pessoa segue desaparecida.
Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que as chuvas intensas são a principal causa de mortes relacionadas a desastres climáticos no Brasil. Entre 2020 e 2023, o país registrou 7.539 eventos desse tipo, um aumento de 222% em comparação com a década de 1990. Nesse período, a proporção de municípios afetados passou de 27% para 83%, e as chuvas foram responsáveis por 86% das mortes registradas.
